Trajetória nos concursos - por João Gabriel Soares de Mello

By | setembro 18, 2020 Leave a Comment

 



Trago hoje a trajetória de João Gabriel Soares de Mello, defensor público no Estado da Bahia, aprovado na defensoria pública do Rio Grande do Norte e Alagoas e Mestre em Direito. A trajetória do João é bem interessante por ser marcada por diversos recomeços: do mestrado como forma de aprofundar leituras que gostava ao trabalho na Justiça Federal como forma de reencontrar seu gosto pela prática jurídica, quando ainda pensava na carreira diplomática. Hoje, realizado, fornece dicas bem interessantes sobre humanística em seu perfil aqui no instagram, que recomendo fortemente! Como bem disse João, "a batalha foi longa, árdua. No caminho, um casamento e uma filha. O clichê está correto, embora não seja fácil seguir: persistência, paciência e resiliência para suportar as dificuldades"

Meu caminho até a aprovação na DPE/BA foi tortuoso, incomum, cheio de curvas e percalços, porém gratificante. Nunca havia pensado em seguir uma carreira jurídica. Apaixonado pelas disciplinas que a maioria detestava (Filosofia do Direito e afins), chamou minha atenção a carreira diplomática desde a metade do curso de Direito. 

Amante de leitura, conciliava Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior (na época, exigidos para o CACD - Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata) com o Vade Mecum e a doutrina apenas necessária para aprovação nas cadeiras da Faculdade. Por volta do 5º período, minhas leituras de “lei seca” me renderam a aprovação para o cargo de Técnico Ministerial no MPPE, instituição na qual viria a trabalhar por 5 (cinco) anos.

Terminada a Faculdade, entre a Academia e o estudo para Diplomacia, venceu a primeira meio por acaso: tinha ouvido falar que um colega havia ingressado no curso de Mestrado e tive curiosidade de analisar as exigências do certame. Ao constatar que os temas cobrados na avaliação correspondiam ao que me interessou durante todo o Curso de Direito, foi irresistível a vontade de tentar minha sorte.

O ingresso no Mestrado coincidiu com a minha nomeação no MPPE. Foram 2(dois) anos de estudos até a apresentação da dissertação. Finda a pós-graduação, de imediato ingressei no Curso Clio para o estudo do CACD. Foi a minha primeira experiência de preparo para um concurso de alto nível.

Eram onze matérias a estudar, de três línguas diferentes a economia, e um pouco de Direito. Apesar de sempre ter gostado de ler, a disciplina para estudar para um edital que abrangia matérias tão heterogêneas me era penosa. Adotei o método de estudar por ciclos, na tentativa de avançar gradativamente em cada uma das onze matérias.

Mais uma dificuldade: a prova do CACD era elaborada pelo CESPE e tinha como método de contagem de pontos a terrível (para mim) pontuação negativa. Estudei por três anos numa sala específica para estudos. Uma lembrança viva que guardo dessa época é a imagem de uma planilha de Excel que continha cada uma das onze matérias e o tempo líquido que eu havia dedicado a cada uma. 

Foi um fracasso total. A minha melhor pontuação na primeira fase do concurso, da qual eu nunca cheguei a ser aprovado, foi obtida na primeira tentativa, com apenas 6 meses de estudo. Fui reprovado com notas piores nas duas tentativas seguintes, mesmo com muito mais conteúdo estudado. 

Olhando em retrospecto, penso que sobrou ingenuidade e falta de estratégia na realização das provas seguintes. Não fazia exercícios e sequer simulados para aperfeiçoar o modo de fazer provas que pontuam negativamente.

O que me demoveu do sonho da diplomacia foi a mudança no ambiente de trabalho. Após 5(cinco) anos no MPPE, surgiu uma oportunidade de cessão para a Justiça Federal em Pernambuco. Ingressei na Secretaria de uma Vara Federal em fevereiro de 2014 realizando trabalho meramente burocrático, mas não por muito tempo.

Foi concedida remoção para o juiz federal que havia me requisitado, de modo que fiquei “no limbo”: não sabia se retornaria ao MP ou se me dariam oportunidade em outra Vara. O último aconteceu e foi o determinante para mudar o rumo dos meus estudos.

Após um ano na nova Vara, tive a oportunidade de trabalhar na assessoria. Elaborava minutas de decisões e sentenças na área que eu mais gostava: Direito Civil e Administrativo. Passei a admirar a prática jurídica de uma maneira que nunca havia concebido antes. Aberta a via de retornar aos estudos de Direito, escolhi prestar concursos para Defensorias Públicas Estaduais e outros que eventualmente surgissem.

A escolha pela carreira de Defensor Público não foi motivada por qualquer tipo de idealismo: simplesmente avaliei qual seria a profissão que me agradaria mais no dia-a-dia de trabalho. Preferia a postulação a ter que decidir questões jurídicas e o atendimento ao público ao trabalho quase exclusivo de gabinete.

O estudo gradativo e simultâneo de onze matérias diferentes me deixaram com total aversão a esse método de avanço nas disciplinas. Mudei para o radicalmente contrário: passei a estudar uma matéria por vez. Após um ano e meio de estudos bastante desorganizados consegui uma boa pontuação no concurso para Defensoria do Maranhão.

Salvo engano, fiquei a 5(cinco) pontos do corte. O que era terrível para quem estava na ativa faz tempo, me abriu uma ponta de esperança de possibilidade de aprovação. Nesse mesmo ano, cometi o último equívoco de falta de foco: me saí péssimo nos concursos da AGU de PGFN, que cobravam disciplinas com profundidades bem diversas que nos certames de Defensoria.

A minha alienação em termos de método de preparação era flagrante. Não possuía redes sociais e não integrava qualquer grupo de estudos de pessoas com interesses comuns.  Depois dos revezes nos concursos federais decidi investir um bom dinheiro em um coach para sair do isolamento.

Dado esse contexto, foi essencial para mim uma pessoa que “calibrasse” meu rumo, me indicasse materiais e estabelecesse uma rotina que abrangesse doutrina, lei seca, jurisprudência e questões. Foi como afiar uma espada cega e exercitar golpes antes “porcamente” executados.

Tive apoio por um ano, o suficiente para que, na caminhada, pudesse andar com as próprias pernas. A minha rotina era, sinteticamente, a seguinte: uma matéria por vez (de capa a capa) em cinco horas líquidas (marcado somente o tempo efetivamente estudado), sendo em média distribuídas entre 2 (duas) de doutrina, 2(duas) de lei seca e 1 (uma) de informativos resumidos.

Um dia da semana era inteiramente dedicado à resolução de questões e, nos finais de semana, as horas eram livres (não me colocava em obrigação de fazer as cinco horas líquidas dos dias úteis). Foi uma rotina mantida por cerca de 2 (dois) anos. 

No fim do primeiro ano com a “espada amolada”, fui aprovado na primeira fase da Defensoria do Rio Grande do Norte. Pelo fato de meu trabalho consistir em escrever todo dia, não tive muitas dificuldades na preparação para a prova discursiva. O mesmo não pode ser dito em relação a prova oral.

Investi pesado na preparação: curso presencial em outra cidade, oratória com uma profissional de comunicação e treino todos os dias com colegas aprovadas. O resultado, dado o tempo, dinheiro e esforço foi bastante insatisfatório: piorei minha classificação em praticamente o dobro do número de pessoas. Esse seria meu grande “calo” nas futuras aprovações.

Nas conversas com colegas de caminhada, costumávamos dizer que para ser aprovado basta ser pelo menos medíocre em todas as matérias e em todas as competências das três fases. Não há aprovação se você for horrível em qualquer delas. 

Malgrado as insatisfações, meu esforço nos treinos para as provas orais não foi inútil: me deixou “invicto” nas três provas orais que fiz. Piorei a classificação em todas elas, mas fui aprovado. Ganhei a experiência de todos os métodos possíveis para aperfeiçoar a oratória e a nomeação no cargo almejado. Reclamar, nesse ponto, seria leviano.

Depois do Rio Grande do Norte, fui aprovado nas Defensorias da Bahia e de Alagoas. Exausto depois de cerca de sete anos de vida de concurseiro (contados os três anos de estudos para diplomacia) pendurei as chuteiras perigosamente, sem garantia de ser nomeado. 

A aposta perigosa deu certo: fui nomeado no início deste ano (fevereiro de 2020) para o cargo que almejei desde 2014. A batalha foi longa, árdua. No caminho, um casamento e uma filha. O clichê está correto, embora não seja fácil seguir: persistência, paciência e resiliência para suportar as dificuldades. 

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