Antes de falar especificamente da trajetória nos concursos, eu me apresento: sou Júlio César de Almeida, nasci em 1988 na cidade de Poc...



Antes de falar especificamente da trajetória nos concursos, eu me apresento: sou Júlio César de Almeida, nasci em 1988 na cidade de Pocrane-MG (perto da fronteira com o ES e com cerca de 10 mil habitantes), mas fui registrado em Viçosa-MG (cidade basicamente universitária). Morei a minha infância e parte da adolescência em São Mateus, no litoral norte do Espírito Santo, com minha mãe e irmão mais velho. Fiz ensino médio em Viçosa-MG, quando eu e meu irmão passamos a morar sozinhos. Minha família praticamente inteira mora nessa região entre MG e ES. Meus pais são professores.


Fui aprovado aos 17 anos no vestibular de direito da Universidade Federal do Espírito Santo da turma 2006/1, época em que, pela primeira vez, passei a morar numa capital. Os meus estudos nas matérias, em geral, eram de um livro “clássico”, e não de livros voltados para concurso ou sinopses. Fiquei até o terceiro período só estudando. No quarto período, passei a fazer estágio na AGU, onde conheci o amor da minha vida, Thaís, com quem comecei a namorar em 13/09/2008 e me casei há pouco, entre a prova discursiva e oral do MPF. A experiência no estágio, por cerca de 6 meses, foi muito boa, sobretudo para concretizar o estudo abstrato de processo civil.


No quinto período, sai do estágio para assumir um concurso de técnico bancário no banco do Espírito Santo, no qual atuei na parte jurídica de um setor de empréstimos e financiamentos. Fiquei por apenas um ano, quando pedi demissão para focar exclusivamente nos estudos.


Do quinto período até o final do curso, passei a ser monitor de Teoria Geral do Direito. Sempre gostei de temas mais abstratos e percebia que, levando às últimas consequências qualquer tema, o debate acabaria por recair em assuntos de TGD/Filosofia. Por exemplo, enquanto em processo civil se discute se a relação jurídica processual é ou não triangular, a teoria geral do direito descreve o que é relação jurídica, ao passo que a filosofia discute se o direito é mesmo relacional e a razão/consequências/interesses da adoção desse modelo em detrimento de outros. No fundo, o que percebia era que, dominando diferentes abordagens no raciocínio base, tinha maior crítica e criatividade na compreensão de modelos mais dogmáticos. A monitoria ainda me permitiu ter contato inicial com a experiência de falar em público, me envolveu em projetos de extensão e pesquisa (cheguei a receber bolsa por um período) e fui me formando enquanto jurista. 


Sobre a graduação, lembro especialmente, no meio do curso, de uma palestra de abertura do semestre do Professor Titular da Faculdade de Direito do Recife (faculdade muito tradicional em filosofia e teoria do direito, onde estudou, por ex., Pontes de Miranda), João Maurício Adeodato, que foi o melhor orador que vi pessoalmente. Além da oratória, trouxe uma perspectiva que não era e ainda não é muito comum nas faculdades de direito: cética e sofista, que entende a verdade como sinônimo de relato vencedor. Quem tiver interesse pode ver uma recente entrevista dele sobre o tema neste vídeo ou ler o livro por ele escrito: “Uma Teoria Retórica da Norma Jurídica e do Direito Subjetivo”.


Passei a pesquisar muito sobre o assunto, o que, somado aos estudos que fazia paralelamente à graduação de TGD e Filosofia, me levou à conclusão que seria importante para minha formação de pensamento a realização do mestrado na linha do Prof. Adeodato, no Recife. 


Em 2010, logo após ser aprovado na OAB no nono período (salvo engano, foi a primeira prova da OAB formulada pela FGV e que admitia prestar o exame antes da conclusão do curso), passei a me concentrar no exame de seleção do Mestrado no Recife. Não cogitava fazer concursos à época, embora já nutrisse grande admiração pelo MPF. A ideia era seguir minhas áreas de interesse e deixar as oportunidades surgirem. Com muita felicidade, fui aprovado e emendei a graduação com o Mestrado. 


Morei no Recife apenas em 2011, quando fiz os dois semestres de crédito de disciplina. Aproveitei para fazer uma pós graduação em tributário ao mesmo tempo. Para minha felicidade, o Prof. Adeodato foi o meu orientador e pude, no estágio de docência, acompanhar todas as aulas de TGD na graduação e ministrar algumas aulas. O mestrado foi em filosofia, teoria geral e sociologia do direito, na linha idealizada pelo Prof. Adeodato, chamada de “retórica jurídica”. A persuasão, a sofística e as estruturas do discurso (quem, como e o que fala – ethos, pathos e logos) foram parte do eixo temático. Procuro usar parte das ideias, de forma bem prática, nos cursos de prova oral, sempre tendo em conta a importância da naturalidade da fala como mecanismo de confiança e empatia.


A bolsa do mestrado era baixa, o que contribuiu para a experiência enriquecedora que foi viver em um quarto sublocado, sem televisão, com muito estudo e leitura. Finalizados os créditos ainda em 2011, retornei a Vitória e, nos anos de 2012 a 2014, fiquei elaborando a dissertação (que defendi em 2013) e advoguei, sendo que, na maior parte do tempo, foi em escritório. A dissertação de mestrado foi recomendada para a publicação, de modo que o texto foi publicado como livro pela Editora Juruá em 2014. Para quem tem interesse em abordagem mais aprofundada em temas de teoria geral do direito e ceticismo, deixo aqui o link. Já adianto que NÃO é uma obra voltada para concursos.


Ainda em 2014, paralelamente à advocacia, iniciei o estudo para concursos, tendo como edital base o MPF. O motivo de iniciar a realização do sonho distante pelo MPF foi pelo fato de que já tinha encerrado o mestrado, o eventual doutorado demoraria para concluir e tinha o interesse de ter maior autonomia financeira.


Em 2014, então, comecei lentamente a executar o método que narro aqui no site e no instagram. A formatação do método foi feita basicamente com a leitura de relatos de aprovados que encontrei na internet, confluindo o que tinha de comum e analisando o que tinha mais relação com meu perfil. A minha maior influência, sem dúvida, foi o Blog do Edilson Vitorelli, Procurador da República, que li e reli várias vezes. 


Em suma, estudei de 2 a 3 horas líquidas diárias em 2014 e 2015. Se o meu estudo para concursos pudesse ser dividido em duas partes, foram estas: (i) em 2014 e quase todo 2015, a preparação do material (de que falo na série “Vade Mecum”); (ii) e, a partir do final de 2015, as revisões (sobre as quais comento na série “revisão”). 


O período mais “lento”, com número menor de horas diárias dedicadas, foi o da preparação, na medida em que optei por não abrir mão dos finais de semana e de outras leituras. Uma ruptura muito brusca da minha rotina, inclusive de leitura habitual de outros temas, não me faria bem. E desde a graduação gostava de temas laterais ao direito: filosofia, história, psicologia, literatura, economia e lógica. Optei, além disso, por conciliar concursos diversos ante o cenário de vacas magras que se desenhava, o que, diante do grande número de ramos, me tomou mais tempo na preparação do material. A escolha por focar “só” no MPF me parecia arriscada: além de ser o concurso mais difícil de todos, a prova era nacional (logo, uma vez reprovado, teria que esperar muito pela “próxima chance”).


No início de 2015, após um ano de estudos de concurso, participei de uma seleção e, com o êxito, passei a integrar a assessoria do Desembargador José Paulo Calmon Nogueira da Gama, que jurisdiciona perante uma Câmara Cível do TJES. Fiquei lá até assumir como juiz do TJRS. Foi um período bem enriquecedor: aprendi a olhar as coisas do “lado de lá” do balcão. A equipe também era excelente! O trabalho era de 12h às 19h.


Entre 2014 (era advogado) e 2015 (era assessor), não tinha a pretensão de ser competitivo. Estava na etapa inicial dos estudos. Assim, fiz basicamente provas aplicadas na cidade em que morava (salvo o TRF-1, cuja prova fiz em BH). No período, então, reprovei nas provas objetivas do TRF-2, em 2014, TRF-1, MPF, AGU e PFN, todos em 2015, com evolução bem tímida. Fui aprovado, em 2014, fora das vagas para a Procuradoria do Município de Vila Velha-ES.


A partir do final de 2015, com as revisões sucessivas, passei a estudar mais horas (de 6 a 7 horas líquidas diárias, incluindo finais de semana). Isso só foi possível porque abri mão, por completo, de outras leituras e também porque tinha a consciência de que a rotação das revisões teria que girar para obter resultados. Outro fator – mais psicológico – que contribuiu para o maior rendimento foi a pressão decorrente do fato de que o TJES tinha passado do limite prudencial de gastos com pessoal, de sorte que, constantemente, havia receio de cargos serem cortados nas assessorias.


No ano de 2016, já estava disposto a viajar para fazer as provas. Tive a minha primeira aprovação em prova objetiva no TRF-3ª Região – que fiz ainda em fevereiro –, mas reprovei na prova discursiva. Aprendi e muito na derrota. Como bem ensinou a Abby Ilharco, juíza federal, na postagem sobre as 10 lições de esperança, as derrotas podem nos ensinar muitas coisas. No caso, basicamente, reprovei por escrever pouco. Fiz rascunho, não disse o óbvio (pensava que a lei, por ex., não precisava ser mencionada), com a falsa ideia de que a Banca esperava algo feito com muito rigor técnico, bem condensado. Depois de analisar as provas de outros candidatos que tiveram boas notas e da resposta da Banca ao meu recurso – afirmando que fui um dos candidatos que menos desenvolveu o tema –, tirei uma conclusão que se manteve sempre hígida na minha mente (tanto que, dali em diante, não reprovei mais em discursivas): o óbvio deve ser dito; a concorrência, em geral, não é aprovada por saber algo “fora da curva”; e a organização da resposta é muito menos relevante do que a quantidade de informações.



Ainda em 2016, fiz e fui aprovado nas provas objetivas e discursivas do TJRS, do TRF-4 e da Defensoria Pública do Espírito Santo. Fui aprovado na procuradoria de Guarapari-ES e em primeiro lugar na procuradoria legislativa de Aracruz-ES. Resolvi não assumir a procuradoria, uma vez que, embora o cargo fosse estatutário e a remuneração bem semelhante à que recebia, eu já estava aprovado para fazer a prova oral da Defensoria Pública do Espírito Santo. As chances de aprovação eram boas, de modo que assumi o risco para não romper uma rotina que estava com excelente engrenagem entre trabalho e estudo. Outro fator é que a atuação contenciosa, minutando os acórdãos, me parecia mais proveitosa para as provas do que uma atuação extrajudicial de Procurador Legislativo. Por fim, a adaptação à carreira nova gasta energia e me exigiria andar uns 100km de distância.


Em 2017, o TRF-4ª Região, em fevereiro, divulgou o resultado das sentenças. Reprovei na penal. Lembro de assistir a sessão pela internet. Foi bem cruel, como, aliás, acho que são as correções de sentença penal, nas quais o “erro” normalmente impacta em cascata e é dificilmente recuperável. O mês seguinte – março – foi o mês em que mais estudei na vida. Tirei férias e fiz 300 horas líquidas. Tinha a prova objetiva do MPF no dia 11/03, a objetiva do TRF2 em 25/03 e a oral da defensoria no primeiro domingo de abril (02/04). Arrisquei bastante com o ditado ecoando na cabeça de que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. O risco era acentuado porque a FCC tinha examinador próprio para o ECA na DPES, com muitas perguntas práticas, sendo que meu conhecimento no tema era abaixo da média dos candidatos à defensoria (basicamente a letra do ECA e poucos julgados).


Apesar disso, veio a notícia de que tinha sido aprovado e dentro das poucas cinco vagas da DPES. Em abril de 2017, estava aliviado de que o caminho “deu certo”. A jornada ficou inexplicavelmente mais leve. Logo em abril, o TJRS marcou para o mês seguinte a prova de sentença e com a peculiaridade de lá a prova ser com autos reais (não era com o usual "enunciado" feito pelo examinador). Eu não tinha manuseio algum de processos criminais, seja como advogado, seja como assessor. Para colmatar essa lacuna em curto espaço de tempo, fiz uma segunda turma lançada pelo curso Mege para o TJRS. Para minha frustração (confesso que não pesquisei se a simulação era nos moldes da prova do TJRS), eram provas de “enunciado”. Mantida a lacuna, tive, na prova, certa dificuldade para manusear, em curto espaço de tempo, autos criminais.


Fiz a prova subjetiva do TRF2 no final de semana seguinte ao TJRS, no final de maio de 2017. Depois dessas provas, a próxima no calendário era a objetiva do TJSP (concurso 187) e tinha que aguardar o MPF retomar o concurso e a DPES me nomear. Em junho de 2017, o TJRS divulgou o resultado das sentenças e estava aprovado para a oral! A emoção foi indescritível, até maior do que a da própria aprovação no concurso! Sempre enxerguei a sentença como o divisor de águas nas provas de magistratura. Tinha sofrido bastante com a reprovação no TRF-4ª Região. Lembro de ficar sem dormir uns 2 ou 3 dias, pois realmente senti que estava perto de ser juiz. A prova objetiva do TJSP foi no final de semana seguinte ao resultado das sentenças do TJRS. Fiz e deu certo também.


O TRF-2ª Região, na semana depois da prova objetiva do TJSP, divulgou o resultado da discursiva e tinha sido aprovado. Resolvi fazer curso de prova oral para o TJRS porque não queria correr o risco de não ser aprovado tão na “cara do gol”. Na prova oral anterior que tinha feito – em que fiquei em 3º da prova oral com mais de 100 candidatos na DPES –, não cogitei fazer curso de prova oral, pois estava no meio de uma bateria de provas, tendo o MPF no caminho. Fiquei uma semana no RJ fazendo o curso da Rogéria Guida, quando conheci parte dos grandes amigos que viriam a tomar posse comigo no TJRS.


Na sequência, o concurso do TJRS acabou sendo suspenso judicialmente. Foi um balde de água fria. Mas tudo na vida tem seu lado positivo: a turma do TJRS se uniu tanto que formou um grupo profundamente coeso de amigos para a vida toda! No meio da suspensão, fiz as provas subjetiva e de sentenças do TJSP.


Retomado o concurso do TJRS, havia mais ou menos um mês para a prova. No meio, o primeiro exame psicotécnico de concurso que fiz. Para mim era algo tenso, porque sou daltônico e muitos exames pressupõem que você saiba bem as cores. Ao mesmo tempo, daltônico não é PcD (nem acho que justifica ser) para concurso. Mas o resultado é que fico, de certa forma, sem amparo caso se apliquem exames envolvendo cor. Para minha sorte, não teve nada com cor!


Feliz e pronto para fazer a prova oral do TJRS, o TRF2 marcou o resultado das sentenças para uma semana antes da data da oral no TJRS. Novamente a sentença penal me reprovou. Isso me deixou muito mal, porque, embora a prova tenha cobrado entendimento sobre lei revogada (segunda geração da lei de lavagem), tive a coincidência de minha resposta pela absolvição de um réu ter guarida no entendimento do STJ sobre tal lei, de modo que tinha a sincera expectativa de aprovação. O espelho foi fechado. O erro em cascata me trouxe perda de pontos indispensáveis. Embora eu não tivesse um sonho de integrar a magistratura federal, o TRF-2ª Região (que engloba o RJ e ES) fica bem perto da família. O recurso foi desprovido, com elogios à prova que fiz, mas dizendo que abrir o espelho “violaria a isonomia”. Ainda que tivesse chance, não cogitei judicializar, pois jamais tomaria eventual posse na condição de "sub judice", quando tinha nomeação certa (DPES) e uma provável (TJRS). Senti bastante, mas tinha que recuperar o ânimo para a oral do TJRS na semana seguinte.


Em Porto Alegre, enfrentei pela primeira vez uma prova oral com o sorteio de ponto 24 horas antes, como sói acontecer nas magistraturas. A prova da DPES e do MPF não sorteia ponto com antecedência: sorteia na hora. Em termos de vulnerabilidade, não tenho dúvidas de que o sorteio na hora é bem mais difícil, pois todo o edital, em tese, poderá ser cobrado do candidato. A história de que a arguição tende a ser mais “leve” me parece falsa, já que as arguições na DPES e, principalmente, no MPF não aliviaram em nada! Por outro lado, ainda que o sorteio com 24 horas permita revisar tudo o que será cobrado, transforma o dia anterior à prova numa guerra. Eu, como tinha material bem enxuto, partia da certeza de que revisaria tudo no tempo e mais de uma vez (revisei 2x). A ideia era revisar, dormir, acordar cedo e revisar novamente. O problema foi “dormir”. A cabeça fica muito agitada. Depois de 3 ou 4 horas rolando de um lado para o outro, resolvi voltar a estudar. Dormi um pouco durante a manha. Fui para o TJRS fazer a prova à tarde e, felizmente, no sorteio da ordem de arguição, fiz a prova logo no início, às 13 horas. Depois de menos de 1 hora de arguição, estava bem confiante no resultado. O feedback de pessoas que assistiram foi muito bom. Às 14h30m já estava no hotel. Mas dormir bem mesmo não consegui naquele dia e nem nos dias seguintes. O resultado foi divulgado no dia seguinte, com posse prevista para 3 semanas. Saindo do TJRS, já passei a olhar para o RS como minha futura casa!


Pensava que estava finalmente aposentado dos concursos. Os resultados pendentes eram o TJSP (que não tinha ainda divulgado o resultado da discursiva) e o MPF (que não tinha divulgado sequer o gabarito da objetiva, pois o concurso ainda estava suspenso na justiça). Parei de estudar para concursos, procurei me adaptar à carreira, à presidência de atos, à gestão do acervo processual. Essa adaptação toma muita energia. Recordo de fazer um Júri na primeira semana após a posse. Aproveitei o período também para conhecer mais os amigos, o Estado (principalmente a Serra Gaúcha), a futura comarca (Caçapava do Sul), para a qual me titularizei no mês seguinte ao início do curso de formação.


O TJSP, ainda no final de 2017 (dois meses após a posse no TJRS), divulgou o resultado da discursiva. Não retomei os estudos de imediato porque poderia ser em vão, já que o meu gargalo estava em “acertar” espelhos de sentença penal (tinha, até então, destoado e reprovado nos TRF’s 2 e 4, mas “acertado” no TJRS). Em fevereiro, o TJSP divulgou o resultado das sentenças e, com a confirmação da prova oral para meados de junho, voltei a estudar. A magistratura me esgotava bastante. Só conseguia estudar de 2 a 3 horas nos dias úteis, sendo que, no início da retomada, estava com dificuldade de prestar atenção (o raciocínio fugia muito para as novidades que estava vivendo: abrigo, prisões, instrução, conclusão gigantesca etc.). Eu era também juiz eleitoral e diretor do foro. 


No psicotécnico do TJSP, novamente veio à tona o problema com cores. O exame, dessa vez, exigia que soubesse cores. Lembro de conversar com a equipe, ocasião em que a pessoa perguntou se eu estava inscrito como PcD ou se tinha avisado à Comissão. Disse que não. E foi aplicado o exame com cor. Coloquei lá, por conta própria, um “* candidato com daltonismo” a fim de me resguardar para futuro problema, inclusive eventual judicialização. Deu certo e passei.


A saga então foi o dia da prova oral. O TJSP, em maio, sorteou a ordem de arguição de candidatos. Eu fiquei para o dia 4 de julho. O problema era que, se o Brasil ficasse em segundo do grupo na Copa, a data do jogo nas oitavas iria fechar o expediente no TJ, de maneira que a minha prova oral iria para o último dia, em agosto. Torci muito para isso não acontecer, já que estava praticamente sem forças para conciliar tudo. O Brasil confirmou o primeiro lugar do grupo e estava confirmada a prova para a semana seguinte. Comprei a passagem, fiz a prova e senti que fui bem. Dessa vez aprendi a lidar melhor com as 24 horas. Fiz as revisões e dormi bem. Lembro de, na noite após a prova, ir a uma pizzaria com minha esposa em SP, momento em que conversamos que, finalmente, estava aposentado dos concursos. O MPF era o resultado pendente, e eu imaginava que estava, dia a dia, perdendo condições de competir. Já traçávamos planos para o Estado de São Paulo.


No final do mês de julho, sobreveio a notícia de que o MPF retomaria a prova e com muita pressa: divulgou os aprovados na objetiva, convocou para subjetiva com aplicação nos dias 18 a 21 de agosto (!!!) e, após, para a prova oral em novembro! Meu nome estava lá. O sonho distante de graduação, que já estava bem adormecido, voltou a mexer comigo. Mas foi diferente: eu já era juiz. Iria trocar um tribunal de grande porte por outro. O TJSP remunera melhor que o MPF, está localizado na região com interior mais desenvolvido do país (no MPF, a expectativa de chegar em qualquer lugar do Estado de SP é de mais de 5 anos), tem boa estrutura de aeroportos, eu já tinha bom “timing” do dia a dia de juiz (e tinha também a visão do segundo grau, enquanto assessor de Desembargador)... Assumir o MPF (caso aprovado) envolvia perda de remuneração, de lotação, de zona de conforto e a inserção de grande incógnita (não conhecia o órgão de dentro, nunca sequer estagiei lá, de modo que minha visão poderia ser muito idealizada e não apta a justificar a troca do “certo pelo duvidoso”). Além dessas dúvidas de carreira, do fato de que não tinha sequer feito a prova subjetiva, do distanciamento da matéria federal (desde maio de 2017, com o TRF2, eu não lia mais DH, Internacional, econômico, financeiro, Crimes Federais, bem como não acompanhava os entendimentos do próprio MPF), eu estava com casamento marcado para o dia 13/09/18, quando completaria 10 anos com a Thaís.


A escolha foi de fazer as provas e, com eventual resultado positivo, estudar mais a possibilidade de trocar a magistratura pelo MPF. Tentei sair da UTI nas matérias federais naquele mês de agosto (confiando na base que tinha estudado para o TJSP) e fiz as provas subjetivas em 4 dias seguidos (de sábado até uma terça-feira). Lembro de não ter conseguido pontuação boa (2 de 10 e 4 de 10) nas duas questões de Constitucional, que cobraram temas sobre os quais havia manifestação da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC). E eu sequer tinha acessado o site da PFDC. Tinha lacunas bem mais graves a cobrir...


Além disso, o meu local de prova era Vitória-ES, onde fiz a inscrição ainda no segundo semestre de 2016. Tive que contar com o deferimento de mudança de local para Porto Alegre e, também, de afastamento pelos Tribunais que integrava (TJRS e TRE-RS). O processo eleitoral já tinha se iniciado e, enquanto juiz eleitoral, estava sujeito à chamada “quarentena eleitoral”. Tinha receio até de a licença do casamento não ser deferida. Mas, no final das contas, deu tudo certo!


Em setembro de 2018 não estudei: eu e Thaís casamos, fomos para a lua de mel e nos organizamos para mudar do RS para SP, cuja posse seria já no dia 02/10/2018. Também analisamos muito o interior do TJSP, pois havia a escolha da “circunscrição judiciária”. Fiquei bem classificado, de sorte que era possível escolher até mesmo ser substituto em Campinas, mas optamos – pelo tamanho da cidade e qualidade de vida – por Piracicaba, que, aliás, é cidade bem próxima do aeroporto de Campinas.


Uma semana antes da posse no TJSP, o MPF divulgou os aprovados na subjetiva: tinha passado para a oral, que seria em novembro. A cabeça foi a mil. Juntei a papelada da inscrição definitiva, mudamos de estado. Lembro de só conseguir me organizar na segunda semana de outubro para a “última revisão”. O curso de formação no TJSP levava o dia todo, mas, aos trancos e barrancos, consegui fazer uma revisão global nos últimos 50 dias que tinha (e, dessa vez, ler o site da PFDC!).


Como a ideia de passar no MPF era bem concreta, tentei, nas horas vagas, obter maiores informações do cotidiano de um Procurador para não escolher com idealizações. Não haveria muito tempo entre a aprovação e a nomeação, caso conseguisse ficar na “primeira leva”. Lembro que, no início, a balança pendia pelo TJSP. Só uma semana antes da oral do MPF eu cravei para a minha esposa que, passando, assumiria. O critério foi a possibilidade de arrependimento. A ideia do “eterno retorno” de Nietzsche sempre me pareceu um bom termômetro diante de dilemas. Imaginando viver a mesma vida eternamente, como se a vida fosse um filme a ser visto infinitas vezes, você ficaria no lugar em que se encontra ou tomaria uma atitude? A escolha dessa metáfora do “eterno retorno” normalmente produz coragem e enfrentamento de zonas de conforto. No final das contas, ao usar como parâmetro o “eterno retorno”, já estava trilhando o caminho para o MPF.


Quanto à magistratura, eu tinha certeza do que era, inclusive seus defeitos claros (estrutura, volume e muita demanda não contenciosa). Pensei que, se tivesse, em 5 anos, com a pauta cheia de audiências, sem ter condição de ler com muito afinco os processos, poderia ser frustrado com a permanência. A certeza pelo MPF me deu o gás final. E fui lá, pronto para meu último exame. Sem o sorteio nas 24 horas antes, aproveitei para descansar o máximo possível, sem ler nada na véspera. Após cerca de 3 horas de arguição (os trechos do áudio da prova estão neste link), finalmente me aposentei dos concursos. A sensação de leveza nos ombros é a melhor possível. Sai com a convicção de que tinha feito uma boa prova e poderia, finalmente, descansar.


Na semana seguinte, tivemos acesso ao resultado final e outra grande surpresa – nunca sequer cogitei isso na vida! – foi passar em primeiro lugar do concurso e da prova oral do MPF. No meio de felicitações, muitas pessoas me pediram dicas e sugestões. Foi quando resolvi criar a página do instagram (@juliocesaralmeida) e atuar no ramo de prova oral, para o qual, até mesmo pela minha formação acadêmica, posso ajudar mais. Apesar de tudo o que falei, assinar o pedido de exoneração do TJSP não foi fácil. Passa um baita filme na cabeça. Com a posse marcada para o dia 7 de janeiro no MPF e evento no dia 11 de janeiro, fiquei, no recesso, preparando o discurso (link aqui). Fiz menção aos cantos das sereias que, a todo tempo, tentam nos tirar do caminho, como tentaram fazer com Ulisses na Odisséia.


Bom, a ideia foi trazer um resumo de dilemas que enfrentei e escolhas que fiz. Se pudesse voltar atrás, eu teria sido mais leve no caminho dos estudos. Depois de um certo nível de competitividade, eventual pausa o deixa “adormecido”, e não “fora de combate”. O meu caso infirmou toda a minha ideia rigorosa de que, parando, a curva do esquecimento me engoliria em menos de um mês. Entre outubro de 2017 (oral do TJRS) e novembro de 2018 (oral do MPF), fiquei: 4 meses parado (novembro, dezembro, janeiro e fevereiro); depois, estudei as poucas 2 a 3 horas nos dias de semana (março a junho); em julho, parei novamente; com a retomada do MPF, estudei 3 semanas em agosto e por poucas horas; em setembro até meados de outubro, parei totalmente; de outubro até a prova oral, em 25.11.2018, estudei poucas horas.


Nesse cenário, o Júlio que começou os estudos para concurso diria, com grande grau de certeza, que essa pessoa não teria condição de passar, ainda mais em primeiro do MPF. A experiência infirma muitas de nossas convicções. Com a base formada, permita-se mais. Tenha sempre persistência, disciplina e método. Mas, sobretudo, viva! E siga sempre seus sonhos! Afinal, se você fosse viver a mesma vida infinitas vezes, iria preferir sentir tédio ou emoção? Te vejo na posse!

12 comentários:

  1. Fantasticamente inspirador!!! Parabéns e obrigada por compartilhar sua história de sucesso!!!

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  2. Muito bem resumida a sua história de vida! Se obteve todos esses êxitos não foi por acaso, seus méritos são notórios. Parabéns meu filho!

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  3. Nossa!! É de emocionar e se inspirar!!

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  4. Também serei PR e sempre vou me inspirar no seu exemplo de vida. Parabéns e obrigado por compartilhá-lo conosco!

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  5. Dr. Júlio, é um alívio sentir que é possível. Apesar de não ser fácil, é possível. Muito obrigada por isso! Abraços e sucesso! Edith

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  6. Chorei! Esse "cara" me animou e muito para estudar! Obrigado

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  7. Eu tava me identificando com o texto (entrei com 17, gosto de teoria do direito, estagiei na AGU) mas infelizmente não conheci o amor da minha vida kkkk. Júlio é uma grande inspiração pra mim, obrigada por boa ensinar com suas aulas e a sua história!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Fiquei extremamente emocionado.
    Tenho que fazer textão (desculpe, risos):
    Hoje, ainda estou na graduação de direito. E já passei por uma situação em que tive que escolher, entre continuar no curso de Ciências Contábeis (onde já tinha investido um pouquinho de tempo. E não precisava mais "lutar" nos vestibulares) ou abrir mão do correto andamento desse curso para lutar pela minha "vocação" (o direito. Que, para mim, tinha como principais "defeitos" o fato de ser um curso "populoso" e a dificuldade de se entrar numa universidade federal, pois eu não tinha condições de pagar. Mas, foram coisas que decidi relevar, para fazer o que gosto). De qualquer maneira, corri atrás da metade do meu sonho (passar em direito na UnB, e passei!) e, agora, já estou de olho na outra metade (MPF). E, assim como o Vitorelli lhe influenciou, você já está me influenciando.
    Por fim, também sonho um dia te ver na minha posse!

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