Trajetória nos concursos - Flávia Rocha Garcia

By | fevereiro 21, 2019 1 comment


Pessoal, trago o rico e emocionante relato da Flávia. Acompanhei de perto sua trajetória nos concursos. Flávia foi minha veterana na graduação na UFES. Fizemos juntos nossa primeira prova subjetiva. Dividimos angústias e, depois de um tempo, passamos a trabalhar assessorando Desembargadores diferentes no TJES. A Flávia cresceu muito no mundo dos concursos. É um exemplo de persistência e superação! Obrigado, Flávia! 

Olá a todos! Me chamo Flávia e atualmente sou Juíza da 2ª Vara Federal de Campos. O Júlio me pediu para escrever algumas palavras sobre a minha trajetória no mundo dos concursos. Questionei a ele o enfoque que vocês gostariam mais e ele apontou o aspecto emocional desse longo percurso. Métodos, bibliografia, revisões - sem dúvidas - são as informações mais importantes e úteis, mas o aspecto emocional acaba prejudicando alguns candidatos e levando-os a tomar decisões precipitadas, para dizer o mínimo.

Para situá-los, tenho 31 anos e formei pela UFES em 2010. Desde o 2º período da faculdade, durante praticamente todo o tempo, sempre estagiei ou trabalhei. Como estagiária passei por cartório de vara da Justiça Estadual, sindicato dos professores, PFN, MPF e depois de formada fui advogada na área trabalhista, oficial de justiça do TJ/ES e assessora de desembargador no TJ/ES. Em linhas bem gerais, eu estudei para concurso de analista de forma bem descontínua lá nos idos de 2009 até início de 2011. Advoguei cerca de 1 ano. Depois entrei no TJ/ES em abril 2012, como oficial de justiça. Dei uma boa parada na sequência, casei, vivi, viajei e retomei firme os estudos em janeiro de 2015. A partir de janeiro de 2017, dentro do TJ/ES, fui assessora de desembargador. Fui aprovada no concurso da magistratura federal em dezembro 2017.  

Se a Flávia de 31 anos, pudesse dar só um conselho para a Flávia de 21 anos, já adiantaria para ela que a maioria dos aprovados irá perder algum concurso de alguma maneira bem triste, até mesmo cruel eu diria. Seja por um ponto, uns décimos, sem ter colado grau, sem atividade jurídica, na prova oral, no seu Estado, do cargo que você é vocacionado. Ou mesmo perder o concurso por tantos pontos que parece que você nunca passará naquilo, o que também é duro.

Pessoal, entendam... as reprovações fazem parte do caminho. Na maior parte das vezes, uma aprovação esconde várias reprovações.  Algumas dessas reprovações são bem duras e algumas poucas vezes eu vi algumas reprovações injustas mesmo. 

No meu caso, eu perdi um concurso de analista antes de colar grau; achei que estava competitiva e reprovei por mais de 10 pontos; reprovei por um ponto 3 vezes e reprovei por 0,3 décimos também. E, olhando em retrospectiva, até acho que o meu caminho foi leve porque não sofri nenhuma reprovação injusta.

Mas vejo muito candidato se perdendo nesse momento da reprovação. Eu também não reagi bem a minha "primeira grande perda" de concurso. Foi em 2009, quando perdi um concurso de analista do TRT/ES por não ter colado grau ainda. Parei de estudar por mais de um ano e consolidei uma crença equivocada de que não deveria fazer concursos que exigissem 3 anos de prática jurídica, enquanto não tivesse 3 anos de formada, porque me achava azarada. (!) Hoje vejo com clareza que essa foi uma decisão simplesmente errada. 

Quando acontecer uma reprovação cruel com vocês é preciso aprender a reagir com sabedoria e serenidade. Isso passa por compreender que esse luto da reprovação é parte do caminho e que outros concursos virão. 

Também não tome nenhuma decisão relevante durante esse luto, ou crie crenças na sua cabeça. Sendo clara, não decida: mudar de foco, desistir de estudar, alterar o método, sair/trocar do emprego para estudar, no calor de uma notícia ruim. Também não incuta na sua mente crenças que aquela reprovação te define, que não tem capacidade, que esse tipo de prova não é para você, que você é azarado, etc. 

Falar isso é o óbvio, mas você vai ter vontade de decidir essas coisas exatamente nesse momento. Como disse, eu também já fiz isso. Você vai se questionar. Vai ficar pensando se vale a pena tanto sacrifício. Vai pensar se quer isso mesmo pra sua vida. Vai achar o seu método errado. Vai se sentir incapaz de ser aprovado. Compreendam que essas indagações são pertinentes e necessárias, mas não nesse momento de luto por uma reprovação, porque a chance de tomar decisões erradas é muito grande. É preciso se curar primeiro, para depois conseguir enxergar a caminho com clareza.

Para viver o luto de uma grande reprovação, se você não estiver com outro concurso com edital aberto, recomendo tirar um tempo para não estudar, ou estudar de forma descompromissada - duas semanas, no máximo. Faça algo que te traga felicidade e que esteja dentro das suas possibilidades. Passado esse período, se ainda estiver com baixa energia para os estudos, tente focar em apenas estudar sem grandes digressões. Só estude. Cumpra as metas de sempre. Se o tombo foi muito grande, seja legal com você mesmo e retome pelas matérias que mais gosta, método que mais gosta, ou assistindo aulas de um professor legal.

Em um momento desses em que travei, procurei uma sala de estudos para me ajudar a retomar a disciplina. Após outras reprovações duras, por um período, eu ouvia músicas que me animavam antes de iniciar o dia de estudos. Se você tiver uma religião, também é um bom caminho e eu também sempre fazia as minhas orações.  

Enfim, foque em se reerguer e voltar a estudar com produtividade e não em corrigir tudo o que fez de errado, ou no que deu errado.

Deixo para vocês a mensagem do sambista, uma das minhas músicas prediletas para esse momento:

"Se os duetos não se encontram mais, se os solos perderam a emoção, se acabou o gás, para cantar o mais simples refrão,
Se a gente nota que uma só nota, já nos esgota, o show perde a razão. 
Mas iremos achar o tom, um acorde com lindo som e fazer com que fique bom, outra vez, o nosso cantar 
E a gente vai ser feliz, olha nós outra vez no ar, o show tem que continuar."

A síntese é essa: o show tem que continuar!  

A partir desse erro que narrei acima, enumero um acerto. Eu não disse para você não avaliar a reprovação, só disse para não fazer isso com o psicológico ruim. 

Quando se sentir bem, reflita sobre o que fez de errado, ou se fez mesmo algo de errado. Talvez tenha ocorrido um bom avanço e é apenas questão de continuar no caminho. Eu sempre me questionava concretamente se o que eu tinha estudado se refletiu em pontuação. A partir desse questionamento eu cheguei a um ponto que o Júlio já abordou aqui no instragram, que acho muito verdadeiro. Nem toda matéria será estudada da mesma forma. Em linhas bem gerais, acabei fazendo resumo da doutrina que sabia menos, via aula daquilo que tinha dificuldade, e revisava por grifos do que me sentia mais confiante. Sempre fazendo muitas questões para a 1ª fase.  Esse "método" eu não defini no dia 1 de estudos, mas fui adaptando ao longo do caminho, mantendo o que estava funcionando e corrigindo o que não estava. 

Também acho importante de tempos em tempos refletir se é isso mesmo o que vocês querem para a vida. 

Relembrar que o concurso é o início de um exercício profissional de longos anos. Reafirmar o porquê de toda essa rotina pesada sempre me fortalecia. Particularmente, eu sempre gostei muito de direito e no período como oficial de justiça, por vezes, não gostava de estar distante do debate jurídico. Eu brincava com amigos que só queria assinar em cima do meu próprio nome. Durante os três anos de estudos mais focados que tive, em vários momentos sopesei novamente minhas escolhas e confirmei que valia o sacrifício para mim. O nome do despertador no meu celular por esses anos foi "Vou ser juíza do TRF2" e, ainda que de uma forma sutil, essas pequenas lembranças cotidianas me ajudaram a seguir focada. 

Bom, é isso o que eu desejo para vocês foco e serenidade e que sejam felizes no caminho!





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